domingo, 22 de maio de 2011

CONVERSA NO FACEBOOK...


Sábado à noite, o Mauricio Rosa, lá dos Estados Unidos, chama para um papo que durou quase duas horas. Falamos de tudo e também, claro de teatro. E eu resolvi destacar um momento da conversa. Perguntas, respostas e reflexões mútuas. Às vezes a distância ajuda, às vezes a distância não é assim tão distante...

Você continua dirigindo?
-- Na verdade eu ando viajando muito.
A trabalho?
-- Sim.
Algo relacionado a vídeo ou ao teatro?
== Teatro. Sou um artesão, mas ando colocando vídeo no teatro pra não me sentir muito fora do meu tempo.
Os caras andam fazendo peças na Alemanha que é só vídeo. Achei ridículo!
-- Mas o novo é bom. Não assusta quem tem a coisa encrustrada no coração.
Assusta mas é sempre bom.
-- Só que as coisas têm que conversar. Não dá pra fazer de conta que não existem.
A vida é quase uma eterna adaptação, mas acho que a intenção é sempre a mesma.
-- Sim. Importante é a elaboração. Algum dia tudo vai se misturar de vez.  Mas o dia em que o teatro prescindir da carne e do sangue em cena, alguma coisa muito linda entre os homens vai desmoronar.
Essência.
-- Sim.
Você acredita em missões?
-- Explique.
Missões.
-- Acho que vim ao mundo para alguma coisa.
Seria o teatro?
-- Às vezes eu acho que vim ao mundo pra ser uma ponte. Não sei se você me entende.
Claro! É exatamente o que eu penso.
-- Às vezes a gente quer ser o destino.
Tocar as pessoas. Isso sim é importante.
-- Ai.
Ou você acha que nunca mudou a vida de alguém?
-- Imagino que sim, mas sinceramente? Não sei se tive a intenção.
No fundo, no fundo você sabe.
-- Rs.
Ou então não escolheria essa carreira louca.
-- Louca é apelido, é esquizofrênica!
Nem Freud explica. Mas que é bonita é.
-- Ninguém é mais livre que o artista.
Sabe o que eu acho mais legal da coisa do teatro?
-- Hm.
A oportunidade de viver várias vidas numa só.
-- E se você for ousado, quantas quiser.
Um dia você é o bandido, no outro você é o mocinho.
-- É o mais maluco. Por isso eu acho esquizofrênico. Você vive mesmo, não finge.
Tem ator que fica doente. Eu tenho esse problema com os livros. Não me conformo em simplesmente ler, tenho que viver aquilo.
-- Vai interferindo na psique.
É perigoso e às vezes, insalubre.
-- Eu só consigo fazer o que sinto. Ultimamente o meu teatro tem sido o reflexo da minha alma. Não do que eu desejo ou penso, mas o que eu sou.
Você acha que ainda é possível não ser lugar comum, ou seja, tudo que tinha pra ser falado, já foi dito?
-- Nos anos 70 o Peter Bogdanovich falou que todos os filmes já tinham sido feitos e que dali pra frente tudo seria uma mera repetição.
Eu acho que, talvez sim.
-- Mas nunca é demais continuar falando de amor, desejos, insatisfações, angústias, inquietações, etc.
E aí eu volto ao ponto da missão.
-- Sim. Talvez.
Você tá fazendo o que, agora?
-- Estamos viajando pelo Brasil inteiro com o espetáculo “O Evangelho Segundo São Mateus”, num projeto do Sesc chamado Palco Giratório. E por isso não estamos criando nada de novo. Ah! E estreamos em fevereiro a peça “Minha Vontade de Ser Bicho”, com textos da Clarice Lispector.
Adoro ela.
-- O espetáculo foi um sucesso. Uma comoção.
Adoro ela.
-- Uma jornalista escreveu: “A peça que emocionou Curitiba!”
Me fala do “Evangelho...”. É um tema religioso?
-- É lindo! Na peça os atores são padeiros e estão fazendo o pão, desde a preparação do fermento. E enquanto fazem o pão (de verdade!) conversam sobre o Evangelho de São Mateus (a palavra) e vão construindo associações com Fernando Pessoa, Nietzsche, Pasolini, Dostoiévski... durante o espetáculo servimos café e vinho para o público. Uma festa!
Responsa, hein?!
-- Por exemplo, sabe o que o Netzsche falou sobre o Sermão da Montanha? Disse: “O Sermão da Montanha pode até ser ingênuo, mas é de uma profundidade inigualável.”
Ele era ateu.
-- Esse é o barato da peça. Desvincular a palavra de todo sentido religioso ou dogmático.
Bacana.
-- Eu gosto de peitar desafios. Me sinto vivo.

... e depois a conversa prosseguiu, quando falamos de psicanálise e Reich e cozinha e filmes...

Nenhum comentário:

Postar um comentário